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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Li // Harry Potter and the Cursed Child de J.K. Rowling, John Tiffany, Jack Thorne

Olá a todos!
Espero que se encontrem bem!

Hoje venho ‘conversar’ um bocadinho sobre o mais recente livro da saga Harry Potter – Harry Potter and the Cursed Child.

Primeiramente, deixem-me dizer-vos: eu gostei do livro. E acho necessário começar por este esclarecimento por todas as ambiguidades e opiniões divergentes que este livro tem criado. Por isso, sim, eu gostei do livro.
Reconheço-lhe algumas coisinhas menos boas, mas, no geral, foram muito mais as coisas de que gostei do que as que não gostei.

Vamos lá então…



Sobre a estrutura do livro

Dezanove anos depois do lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofalestreia, em Londres, a peça de teatro Harry Potter and the Cursed Child (Harry Potter e a Criança Amaldiçoada). Esta peça foi desenvolvida com base num argumento da J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Thorne, sendo adaptada aos palcos por Jack Thorne.

A estreia ocorreu no dia 30 de Julho de 2016 no Palace Theatre, sendo, o livro homónimo, lançado ao primeiro minuto do dia 31 de Julho, data celebrada por serem os aniversários de J.K. Rowling e de Harry Potter (personagem).

Interessa por isso lembrar que este livro é o roteiro da peça. Não é um romance, não é mais um livro igual aos outros da saga.
Isto importa na medida em que, tratando-se de uma peça de teatro, a ambientação é mais reduzida, as cenas não são tão descritivas, não temos acesso direto aos pensamentos e emoções dos personagens, centrando-se o livro mais no diálogo entre os mesmos e em pequenos apontamentos sobre o enquadramento da cena.
O resto do recheio da peça – como cenário, iluminação, banda sonora, linguagem corporal, figurinos – ficará nas mãos dos encenadores, dos atores ou, neste caso, na nossa imaginação…

Por não estar habituada a ler peças de teatro, confesso que, no início, tive alguma dificuldade em arrancar com a leitura, mas, idas as primeiras páginas, comecei a entrar no ambiente e a leitura fluiu. Li-o numa noite (porque não consegui largar) e senti necessidade de, de imediato, registar as minhas impressões sobre ele.


Sobre a história (enxuto e sem spoilers)

O enredo do livro passa-se dezanove anos depois do fim do sétimo livro – Harry Potter e os Talismãs da Morte – sendo, a primeira cena deste Cursed Child quase uma continuação do epílogo do 7º livro da saga.
A cena na Plataforma 9¾, onde a geração Harry Potter, agora adulta, se despede dos seus filhos que se preparam para entrar em Hogwarts, lembram-se? Exato!

O personagem principal da história é Albus  segundo filho de Harry e Ginny  que, nesta primeira cena se prepara para o seu primeiro ano em Hogwarts, sendo acompanhado por James –  o irmão mais velho, e Rose – a prima, filha de Ron e Hermione.

Logo no início percebemos que, para Albus, o legado de viver sendo um Potter é muito pesado: ele não se identifica com o heroísmo do pai, incomoda-se com os olhares que a família recebe e receia não corresponder às espectativas que nele são depositadas… afinal, ele é um Potter!

Por outro lado, percebemos que Rose, que por ser uma Granger-Weasley, filha da Ministra da Magia (sim, a Hermione é Ministra da Magia) se considera superior aos demais, achando que pode e que deve escolher bem os amigos, não se envolvendo com qualquer um. Confesso que achei a sua postura um pouco arrogante e um pouco snob, mas tudo bem…

Já no Hogwarts Express, os primos conhecem, enquanto procuram compartimento, Scorpius Malfoy, filho de Draco. Embora Rose não se queira ligar ele, o jovem revela-se simpático e Albus acaba por passar a viagem com ele. No decorrer desta cena, é-nos contado que Scorpius, por ser vítima de um determinado boato, se sente um pouco marginalizado e que, também ele, se sente desconfortável com o peso da sua herança familiar. Isto faz com que os dois jovens se identifiquem e logo aí nasça uma sincera amizade.

Os primeiros anos passam em poucas cenas e ficamos a saber que Albus é selecionado para os Slytherin. Além disso, percebemos que Albus não tem particular talento para o Quidditch, nem para nenhuma matéria em concreto, o que aumenta a sua sensação de estranheza em relação à família.

Os anos vão passando e avançamos até um ponto em que, ouvindo uma conversa, em casa, Albus descobre uma espécie de injustiça cometida na juventude do seu pai e resolve, com a ajuda de Scorpius, resolver a situação.

Acompanhamos assim a história destes dois adolescentes, numa tentativa de provar aos pais (e a si mesmos) que também são capazes de grandes feitos.

 E a partir daqui contém spoilers! 

Mais sobre a história

Resumidamente, o que Albus e Scorpius resolvem fazer, é voltar no tempo e salvar Cedric Diggory, morto por Voldemort durante o Torneio dos Três Feiticeiros, ocorrido no 4º ano de Harry em Hogwarts.
Esta decisão decorre de uma conversa que Albus ouve entre Harry e Amos Diggory – o pai de Cedric – em que relembram como a morte do mesmo foi desnecessária.

Sabendo que, recentemente, o Ministério da Magia apreendeu um vira-tempo ilegal, Albus sente que esta é a sua oportunidade de fazer algo bom e provar ao pai a sua bravura.

Para conseguir executar esse plano, Albus e Scorpius contam com a ajuda de Delphi, uma jovem adulta, que se apresenta como sobrinha de Amos e que quer, no que lhe for possível, ajudá-los a salvar o primo.

Os jovens lá conseguem, de alguma forma, roubar o vira-tempo do Ministério da Magia e é interessante acompanhar esta aventura, especialmente os efeitos provocados pelas alterações no passado.

Quem está acostumado a filmes ou livros com viagens no tempo sabe que, a mais pequena interferência no passado pode alterar significativamente o futuro e por isso, sem aprofundar muito as voltas que são dadas, num determinado momento, e depois de meterem os pés pelas mãos, os jovens deparam-se com alterações tão significativas no rumo da história que percebem que a única solução possível é cancelar todas as suas ações e interferências no passado.
Para isso, contam com a ajuda de Hermione e Ron que, numa realidade paralela onde as trevas imperam, vivem refugiados, contando apenas com a ajuda de… Snape.

Quando regressam ao tempo presente, tendo anulado todas as interferências no tempo, os amigos contam a Delphie que, numa tentativa de salvar Diggory, este acabou por se tornar devorador da morte e, devido a uma cadeia de eventos daí decorrente, Voldemort acaba por vencer a Batalha de Hogwarts, matando Harry (e inviabilizando, desta maneira, a existência do próprio Albus).

A partir desse momento, e sabendo dessa possibilidade, Delphie insiste para, a qualquer custo, regressarem ao passado e ativar essa cadeia de eventos. Perante um Albus e um Scorpius estupefactos, a verdadeira identidade de Delphie é-nos revelada, bem como quais as suas motivações para trazer de volta o Senhor das Trevas.

Resta agora saber se os amigos vão conseguir evitar este problema…

Reflexões e Considerações finais

Para quem já leu o livro (ou para quem não tem medo de spoilers) este último aspeto – da identidade da Delphie que se revela, afinal, filha de Voldemort –  foi o ponto da história que eu achei mais desnecessário… Para mi, bastava a Delphie ser uma personagem má e pronto! Não havia necessidade de criar-lhe um passado todo rocambolesco que, a meu ver, nem é completamente credível.
Ok, percebo a perspetiva que, de certo modo, um filho é uma forma de imortalidade e que faria sentido Voldemort assegurar a sua linhagem, mas, ainda assim, acho difícil imaginar o seu envolvimento com Bellatrix (que na história, é a mãe de Delphi).

Para mim, a história das voltas no tempo, das implicações que isso traz e da forma como conseguiram corrigir o passado, seria o suficiente para uma grande história. Fizeram asneira, conseguiram 'salvar o dia' e aprenderam a lição, ponto.

O que é que vocês acham sobre isso?

Outro ponto que me fez refletir, foi a relação de amizade de Albus e Scorpius. Fui só eu que achei que, a determinado ponto, esta se iria revelar mais do que uma amizade?

Lembro-me de, há alguns anos, se falar da J. K. ter revelado que Dumbledore seria homossexual, mas a verdade é que esse tema nunca foi transposto para os livros (ou para os filmes…). Sendo um tema bastante atual, achei que, nesta peça, poderia ser um tema a abordar, principalmente depois de, com a leitura, nos ser lembrado o tempo todo que cada um é a pessoa mais importante para o outro (com direito a um Always, e tudo!) e, a dado momento, perceberem-se alguns contornos mais românticos na amizade dos dois adolescentes. Refiro-me, por exemplo, ao momento em que, depois de serem proibidos de se ver, os jovens se encontram numa escada a ficam a contemplar-se…

O que me chateou não foi exatamente o facto desse tema não ser abordado, ok, mas sim o facto de, no final, percebermos que afinal o Scorpius tem uma quedinha pela Rose. What? Como assim? Ela quase não aparece ao longo da peça, na cena em que aparece... é maldosa com ele, mas afinal o Scorpius gosta dela… achei muito clichézinho de comédia romântica, muito uma tentativa de juntar os pares óbvios, mas (mais uma vez!) tudo bem.

A meu ver, neste ponto teria sido preferível não fazer menção a crush nenhuma e deixar a questão em aberto para que do leitor (e o público) pudesse interpretar livremente o relacionamento dos dois.

O que eu mais gostei

Pontos positivos.. gostei muito de ver o desenvolvimento dos adultos da história, e de nos ser mostrado que, mesmo sendo feiticeiros poderosíssimos, e mesmo tendo vivido um ‘felizes para sempre’ a vida continua e os problemas do dia-a-dia são iguais aos de qualquer outra pessoa.
Um exemplo disso é a relação difícil que Harry tem com o filho Albus e a forma como ele assume que, por não ter tido um pai, tem dificuldade em lidar com esse papel. Achei o tema muito real e que humanizou mais os personagens.

Também gostei muito de ver, por outro lado, como mesmo depois de adultos, alguns traços dos personagens se mantiveram. Ron e Draco, com as suas saídas irónicas e cómicas, foram os meus favoritos, embora tenha ficado muito surpreendida com o desenvolvimento de Ginny. Tornou-se uma mulher muito madura, responsável, com bastante jogo de cintura para lidar com a relação do marido com o filho, sabendo bem quando deve ou não interferir.

A cena ocorrida no segundo universo paralelo, em que Ron e Hermione, com o apoio de Snape ajudam Scorpius a resolver o problema da alteração no tempo foi, para mim, das mais comoventes e vai despertar, sem dúvida, muita nostalgia nos fans da série.

Por outro lado, gostei também do facto de, por muitas voltas que a história dê, Neville Longbottom continuar a ser fundamental para a salvação do mundo bruxo.

Outro ponto de que gostei muito, foi de conhecer um pouco mais da relação de Draco com Astoria. Que história triste, mas que história bonita. Apesar da personagem Astoria não ser muito desenvolvida, acredito que seria alguém que todos gostaríamos de conhecer um pouco melhor.

O que eu menos gostei

Como já referi não gostei essencialmente da trama criada em torno da personagem da Delphie – que achei desnecessária – mas houve, além disso, outros aspetos que me incomodaram um bocadinho.

Por exemplo, quem é afinal a cursed child? A Delphie? Ela já não é propriamente uma child e, além disso, ela não foi necessariamente amaldiçoada. Ou foi? Fala-se, na história, de uma profecia, mas não de uma maldição…
Esclareçam-me, por favor, se eu deixei passar alguma coisa em relação a isto..

Ainda neste campo das reclamações: o que é um ninho com asas tem a ver com a história? Eu sei que são detalhes, mas fiquei a pensar nisso e não cheguei a conclusão nenhuma.


Em suma…
De modo geral gostei muito do livro e acho a premissa das viagens no tempo muito interessante. Gostei da ideia dos dois jovens 'excluídos' tentarem algo tão ousado para demonstrar o seu valor e de ver as repercussões que os seus actos teriam.

Acho que para quem é fan da saga, esta é uma oportunidade única de voltar a ler um Harry Potter inédito… ‘pela primeira vez’! Independentemente do formato da obra, a mão da autora está lá, a essência dos principais personagens está lá e acho muito positivo, ao fim de tantos anos, poder regressar a este universo.

Espero que tenham gostado!
Um grande beijinho e até à próxima!

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