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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Lendo Guerra e Paz #6 // Tomo II – 3ª Parte

Olá a todos!
Espero que se encontrem bem!

Hoje venho falar-vos mais um bocadinho da leitura de Guerra e Paz, desta vez em relação à 3ª parte do 2º Tomo.
Esta parte centra-se mais nas vivências do Príncipe Andrei, e nas mudanças que se operam no mesmo ao perceber-se novamente apaixonado.

Vamos lá?

♥ No início desta 3ª parte encontramo-nos em 1809 e percebemos que as alianças entre os imperadores Russo e Francês se mantêm fortes, ao ponto de se falar de um eventual casamento entre Napoleão e uma das irmãs do imperador Alexandre, estando por isso a viver-se um período de tréguas.

♥ Nesse período, Andrei viveu na sua aldeia em Bogutchárovo, implementando, sem dificuldade, os empreendimentos que Pierre sonhara para as suas herdades: tornou os camponeses servos em agricultores livres, contratou uma parteira experiente e ainda um sacerdote para ensinar os filhos dos camponeses a ler e a escrever.
Quando não se encontrava nas herdades, Andrei passava o tempo livre na companhia do pai e do filho, aproveitando para se inteirar, através da leitura, dos acontecimentos exteriores do mundo.
Além disso, dedicava-se à elaboração de um projeto de alteração dos regulamentos e estatutos militares.

♥ Para resolver umas questões relacionadas com as suas propriedades de Riazan, o príncipe Andrei precisava encontrar-se com o chefe provincial da nobreza, nada menos que o conde Rostov, tendo, para isso, que dirigir-se a sua casa.
Nessa visita, Andrei depara-se pela primeira vez com Natacha, ficando surpreendido pela sua leveza e juventude.

De repente, sem saber porquê, o príncipe Andrei sentiu uma dor. O dia estava tão bonito, o Sol tão luminoso, tudo em redor era tão alegre; e aquela rapariguinha magra e bonita nem queria saber da existência dele e estava contente e feliz com a própria vida…” (p. 454)

♥ Depois desta reunião, Andrei desloca-se a Petersburgo, onde decorrem uma serie de reformas políticas, nomeadamente a criação de decretos que viriam a extinguir os graus da corte, bem como substituir toda a ordem judicial, administrativa e financeira da Rússia.
É neste contexto que Andrei é recebido pelo ministro de guerra – o conde Araktchéiev –  para lhe entregar o memorando, no qual trabalhara, sobre o regulamento militar.
As propostas sugeridas por Andrei não foram aprovadas, no entanto, foi-lhe proposto entrar como membro sem vencimento, no Comité para o Regulamento Militar.

Enquanto espera pela notificação sobre a sua inclusão como membro do Comité, Andrei resolve reatar velhos contactos, em especial com personalidades que sabia poderem ajudá-lo de futuro.
Assim, num serão em casa do Conde Kotchubei, Andrei é apresentando a Speránski, comandante-supremo de uma reforma civil que acontecia em Petersburgo. Speránski mostra-se um homem culto, rico em conhecimentos e influências e que, já tendo ouvido falar de Andrei, promete interceder por ele junto ao presidente da comissão para regulamentação do exército.

Andrei vai-se assim aproximando de Speránski, vendo nele um homem inteligente, sensato, enérgico e perseverante, que utilizava o seu poder apenas para o bem da Rússia.

Fruto da influência de Speránski, a verdade é que, passada uma semana, Andrei não só tinha sido aceite como membro da comissão de elaboração do regulamento Militar, como ainda era chefe da comissão da elaboração de leis, passando a trabalhar no código civil.

♥ Surge aqui uma interrupção as aventuras de Andrei para nos inteirarmos do que se passa com Pierre.
Dominado por um sentimento de melancolia, Pierre recebe uma carta de sua esposa, implorando-lhe um encontro e escrevendo sobre a sua tristeza e o seu desejo de lhe dedicar a vida. Pierre é então recordado, por um dos seus irmãos mações, que uma das primeiras regras da maçonaria consistia em perdoar quem se arrependia.
Movido pela busca do autoaperfeiçoamento, Pierre resolve perdoar Hélène e aceitá-la de novo em sua casa.

♥ Regressámos à família Rostov e ficamos a saber que, mesmo mantendo problemas financeiros, estes resolvem voltar a Petersburgo onde, pouco depois da sua chegada, Berg pede Vera em casamento.
Apesar da família Rostov ficar feliz com o pedido e reconhecerem em Berg um bom pretendente, não podem deixar de se preocupar com o valor que terão que deixar de dote, resolvendo então a questão, deixando a Vera um dote de 20 mil rublos, bem como uma nota de promissória no valor de 80 mil.

♥ Boris resolve também visitar os Rostov, surpreendendo-se com o quanto Natacha cresceu e se tornou bela. No entanto, resolve não se aproximar muito da mesma uma vez que “não devia ceder a esse sentimento, porque casar-se com ela, uma rapariga quase sem fortuna, seria fatal para a sua carreira, e reatar as antigas relações sem o objetivo de casamento seria um comportamento ignóbil” (p. 484)
A condessa, apercebendo-se dessa situação, e temendo pela felicidade da filha, pediu a Boris para que não mais os visitasse.

♥ Avançamos até à véspera do réveillon de 1810, quando decorre um baile, para o qual foi convidada a nata da sociedade Petersburguesa, na qual se incluíam os Rostov.
Nesta parte acontece uma das minhas cenas favoritas em que acompanhamos os preparativos das senhoras para a festa, e a preocupação com os seus vestidos e penteados. Tratava-se do primeiro baile formal de Natacha, motivo pelo qual nenhum pormenor pode ser deixado ao acaso.

Para este baile foram também convidados Pierre e Andrei que, inicialmente, não repara em Natacha. No entanto, após ser chamado à atenção por Pierre, Andrei convida Natacha para a sua primeira dança.

…foi dançar e escolheu Natacha porque Pierre lha indicou, e porque ela foi a primeira das mulheres bonitas em que os seus olhos se detiveram; mas assim que enlaçou aquela cintura fina, flexível, palpitante e ela se movimentou tão próxima dele e sorriu tão perto dele, o vinho do seu encanto subiu-lhe à cabeça” (pp. 495-496)

Durante o baile, Andrei deslumbra-se com a jovem Natacha, ficando novamente surpreendido e encantado com a sua alegria e leveza e dando por si a divagar acerca da mesma:

… ‘Se ela se aproximar primeiro da prima, e depois de outra dama, será minha mulher’ – disse inesperadamente a si mesmo o príncipe Andrei, olhando para ela. Natacha aproximou-se da prima em primeiro lugar.
Que disparates nos vêm por vezes à cabeça! – pensou o príncipe Andrei. – Mas a verdade é que esta rapariga é tao adorável, tao especial, que em menos de um mês de bailes, estará casada’…” (p. 497)

♥ No dia seguinte, Andrei deveria encontrar-se com Speránski para um almoço informal, com outras figuras de relevo da sociedade Petersburguesa. No entanto, no desenrolar do convívio, Andrei começa a reconhecer em Speránski algumas características até aí desconhecidas e a desiludir-se com o mesmo.

"O príncipe Andrei ouvia com espanto e com a tristeza do desapontamento aquele riso e olhava para Speránski. Parecia-lhe que aquele não era Speránski, era outro homem. Tudo aquilo que antes imaginara de misterioso e atraente em Speránski tornou-se-lhe de repete claro e nada atraente" (p. 499)

Depois deste convívio, no qual reflete sobre a inutilidade do seu trabalho, Andrei decide-se a ir visitar os Rostov, voltando a sentir uma estranha sensação de felicidade na presença de Natacha.

"Porque me agito eu, porque me debato neste quarto apertado, fechado, quando a vida, toda a vida, com todas as alegrias, está aberta para mim?" (P. 502)

“ (...) Pierre tem razão ao dizer que é preciso acreditar na possibilidade da felicidade para se ser feliz, e eu agora acredito. Deixemos os mortos enterrarem os mortos, e enquanto estou vivo é preciso viver e ser feliz" (p. 503)

♥ Posteriormente, Berg e Vera resolvem organizar um jantar em sua casa, convidando alguns conhecidos e amigos, de forma a apresentar-se, como casal, em sociedade.
Nesse convívio comparecem Pierre, Andrei e, obviamente, a família de Vera – os Rostov.
Pelas expressões dos amigos, Pierre percebe que algo se passa e, mais tarde, tenta falar a esse respeito com Andrei.
Neste ponto, fiquei confusa com uma questão que Andrei faz a Pierre...

" - Preciso, preciso falar contigo - disse o príncipe Andrei. - Tu sabes, daquelas nossas luvas de mulher (referia-se as luvas maçónicas que se davam a um irmão que acabava de entrar para que as desse à mulher amada). Eu... Mas não, depois falo contigo..." (p. 507)

Afinal Andrei também é mação? Terei andado tão distraída que não dei por ela antes?
Foi então que, para exclarecer esta questão, resolvi assistir ao vídeo da Tatiana Feltrin a propósito desta parte, no qual ela explica (segundo as notas de rodapé da sua edição) que, na versão inicial da obra, Andrei era também era iniciado na Franco-maçonaria, tendo essas cenas sido eliminadas na versão final. No entanto, esta alusão à sua iniciação escapou à revisão do autor, mantendo-se por isso este trecho da obra. Acho este aspeto bastante interessante, embora tenha pena de, na minha edição, não virem este tipo de notas explicativas.

♥ No dia seguinte, a convite do Conde Rostov, Andrei vai almoçar com a família, tornando-se mais evidente a sua aproximação com Natacha. Depois desse convívio, Natacha confessa à mãe algum receio em relação a essa aproximação, principalmente por se tratar de um homem viúvo. A condessa acalma a filha, assegurando-lhe que "os casamentos se fazem no céu".

♥ Entretanto Andrei encontra-se com o amigo Pierre, confessando-lhe os seus sentimentos pela jovem Rostova.
Apesar de viver um sentimento ambíguo, por ter um grande carinho por Natacha, Pierre acaba por apoiar o amigo, incentivando-o a declarar-se publicamente.

"Essa rapariga é um tesouro tão grande, tão... É uma rapariga rara... Querido amigo, peço-lhe, não se ponha com filosofias, com dúvidas, case-se, case-se, case-se... E tenho a certeza de que não haverá homem mais feliz." (p. 510)

Após ter tomado a decisão de se casar, Andrei parte para casa, no sentido de obter o consentimento do seu pai.
Apesar de ouvir o filho com aparente calma, o velho Nikolai Bolkósnki enumera alguns entraves ao enlace, nomeadamente a situação financeira dos Rostov, que já por todos era conhecida, a diferença de idades entre Andrei e Natacha e ainda o facto de Andrei ter um filho 'que era pena entregar a uma rapariguinha'. Tendo por base esta argumentação, o conde Bolkósnki pede a Andrei que adie o casamento por um ano e, se ao fim desse tempo os seus sentimentos se mantiverem, aí sim terá o seu consentimento para casar.

Depois da conversa com o pai, Andrei volta a casa dos Rostov, formalizando o pedido de casamento e comunicando ainda o prazo de espera imposto pelo velho príncipe Bolkónski. Apesar de inicialmente estranharem este pedido de adiamento, os Rostov acabam por dar o seu consentimento.

Entretanto, para passar esse ano de interregno, Andrei resolve retirar-se para umas termas, na Suíça, numa tentativa de melhorar a sua saúde.

♥ Depois disto, acompanhamos Maria – a irmã de Andrei – numa carta que esta escreve à sua amiga Julie Karáguina e na qual lhe revela algumas das suas angústias, nomeadamente em relação à partida do irmão, e à preocupação com a saúde do pai e sobrinho. Nessa carta, Maria também ressalta a importância que, para ela, tem a religião enquanto fonte de força para superar essas agruras.

 "...só a religião nos pode, não digo consolar, mas livrar-nos do desespero" (p. 519)

Para Maria, a religião assume-se como principal conforto e alegria, e ficamos aqui a saber que, secretamente, esta deseja juntar-se à 'gente de Deus' e tornar-se também ela uma peregrina, sendo apenas travada pelo dever de cuidar do pai e do sobrinho.

"Mas depois, ao ver o pai e em especial o pequeno Koko, fraquejava na sua intenção, chorava um pouco e sentia que era uma pecadora: amava o pai e o sobrinho mais do que a Deus" (p. 524)


E foi isto!
Sinto que, nesta parte, esmiucei mais o desenrolar da narrativa, indo mais ao pormenor de cada acontecimento. Tratando-se de um diário de leitura, acho importante registar os diferentes momentos, mas, por outro lado, sinto também que falta expor um pouco as minhas reflexões sobre os acontecimentos narrados. O que vos parece?
Contem-me o que acham e não se esqueçam de deixar o vosso comentário!
Um grande Beijinho e até à próxima!


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